Envelhecimento ativo não se resume a exercícios: a dimensão cultural discutida por Yuri Silva Portela 

Diego Velázquez
Diego Velázquez
5 Min de leitura
Yuri Silva Portela

As recomendações sobre envelhecimento ativo geralmente se concentram em exercícios físicos, alimentação equilibrada e exames em dia, deixando de fora uma dimensão igualmente relevante para o bem-estar geral da pessoa idosa em qualquer fase da vida. O Dr. Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria, observa que atividades como ir ao teatro, visitar uma exposição ou participar de um sarau produzem efeitos sobre identidade e pertencimento que ultrapassam os limites de uma simples recomendação clínica, por mais completa que pareça no papel.

Tratar lazer como recompensa acessória, e não como componente ativo da saúde, reduz o envelhecimento a uma equação estritamente biológica, ignorando aspectos que também determinam qualidade de vida ao longo dos anos vividos. Essa lacuna raramente aparece em consultas de rotina, mesmo influenciando diretamente o bem-estar emocional de quem envelhece.

É imprescindível compreender por que a cultura e o lazer merecem um lugar central nessa discussão, e não apenas um espaço marginal e secundário. Para tanto, é necessário olhar além dos indicadores clínicos tradicionais. A seguir, apresentaremos as razões pelas quais essas experiências são relevantes, quais são as barreiras que ainda impedem a participação dos idosos em espaços culturais e como podemos, de fato, promover o envelhecimento saudável.

Por que o lazer vai além de ocupar o tempo livre?

Atividades culturais estimulam simultaneamente emoção, memória e conexão social, combinando benefícios que dificilmente uma única recomendação de saúde consegue reunir isoladamente em uma mesma prática cotidiana e acessível. Reduzir essas experiências a mero passatempo ignora seu papel na manutenção de identidade pessoal, especialmente entre quem construiu, ao longo da vida, forte relação com música, literatura ou tradições culturais específicas.

Ainda assim, algumas barreiras práticas continuam afastando parte relevante do público idoso desses espaços, mesmo quando o interesse genuíno está presente. Entre as mais recorrentes, destacam-se:

  • Falta de acessibilidade física: escadarias sem rampas e assentos pouco adaptados dificultam ou impedem a permanência confortável em teatros, cinemas e museus tradicionais.
  • Custos e horários incompatíveis: ingressos sem desconto específico e sessões em horários noturnos conflitam com rotinas de sono e orçamento mais limitado.
  • Ausência de companhia: muitos idosos evitam sair sozinhos para eventos culturais, mesmo desejando participar, por não terem com quem compartilhar a experiência.
Yuri Silva Portela
Yuri Silva Portela

Quais os benefícios de retomar hobbies culturais abandonados ao longo dos anos?

Participar de atividades culturais em grupo, como corais, oficinas de pintura ou clubes de cinema, cria vínculos sociais construídos em torno de interesse genuíno compartilhado, diferente de encontros organizados apenas pela obrigação formal de socializar. Esse tipo de vínculo tende a se sustentar de forma mais natural e duradoura ao longo do tempo, sem depender de esforço artificial para se manter.

Além disso, o Dr. Yuri Silva Portela alude que a cultura também oferece continuidade biográfica relevante: retomar um instrumento musical abandonado décadas atrás ou voltar a frequentar um cinema de bairro reconecta a pessoa idosa com partes significativas de sua própria história pessoal e afetiva.

Essa continuidade funciona como âncora emocional em uma fase da vida marcada por perdas e mudanças frequentes, oferecendo um fio condutor de identidade que atravessa décadas inteiras, mesmo quando o corpo e as circunstâncias já não são os mesmos de antes.

Ampliando o que entendemos por envelhecimento ativo

Incluir cultura e lazer como pilares do envelhecimento ativo, ao lado de exercício físico e alimentação equilibrada, amplia significativamente a forma como profissionais de saúde e famílias pensam qualidade de vida na terceira idade e no cotidiano de cada paciente. Participação cultural deixa de ser luxo dispensável e passa a integrar uma estratégia mais completa e realista de bem-estar contínuo.

Essa ampliação de perspectiva reflete diretamente na forma como intervenções são planejadas, considerando não apenas o corpo, mas também aquilo que dá sentido subjetivo à vida de cada paciente atendido. Envelhecer ativamente envolve manter viva a relação de cada pessoa com aquilo que sempre lhe trouxe prazer e propósito. Doutor Yuri Silva Portela conclui que reconhecer cultura e lazer como parte legítima da saúde, e não como extra dispensável, é o que amplia de fato o que se entende por envelhecimento ativo na prática cotidiana.

Compartilhe este artigo